quinta-feira, junho 02, 2005

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA


Se não fosse esta certeza
que não sei de onde me vem,
não comia, não dormia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.


(António Gedeão - Poesias Completas)

1 comentário:

Anónimo disse...

@Carla@ @Como é, não sei! tampouco o que é ou o porquê. Interrogo-me se será o estar prenhe de um milhão de estrelas ou de um bando de aves, ou estar só como uma flor,na fertil terra de um remoto jardim onde tu és a Rainha,já desabrochou o sorriso no deserto do teu rosto ou, ainda, que só para mim, ou será um sonho novo? mas porque inventar novas percepções desmedidas neste renovado paraíso se só és Rainha. Beijos miguel@